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SUSTENTABILIDADE

Startup usa fungos e resíduos como substitutos de materiais poluentes

Tecnologia da Mush, desenvolvida em pesquisa da UTFPR campus Ponta Grossa, usa um único processo produtivo para atender diversos mercados

Ao fazer pesquisas com cogumelos comestíveis, o pesquisador Eduardo Bittencourt Sydney, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) campus Ponta Grossa, viu que o crescimento do fungo a partir de determinados resíduos agroindustriais originava um bloco relativamente rígido, que tinha algumas propriedades interessantes para outros mercados, além da produção de alimentos. Assim nascia uma pesquisa pioneira no país, que daria origem mais tarde à startup Mush, nas dependências do Laboratório de Fermentações do curso de engenharia de bioprocessos e biotecnologia do campus Ponta Grossa, no final de 2019.

Além de dar destinação a resíduos da agroindústria, a pesquisa tem alto potencial na substituição de materiais de fontes não renováveis e que causam impacto ao meio ambiente. Estudos utilizando os fungos para esta finalidade já são realizados em todo o mundo, mas a pesquisa realizada em Ponta Grossa faz o país detentor da tecnologia e, sendo um dos maiores produtores agrícolas do mundo, aproveita a grande disponibilidade de resíduos produzidos pela agroindústria.

“São muitos atores por trás dessa tecnologia e o potencial dela é realmente enorme. E nós estamos no Brasil, que é um mercado consumidor gigantesco, onde a gente tem resíduos agrícolas em quantidades absurdas”, observa Sydney. “Então, temos tudo para fazer isso no Brasil. Nosso desafio é fazer com que a gente não tenha que importar essa tecnologia.”

Testes mostram que material é resistente a chamas e termoacústico (Foto: Divulgação/Mush)

Desenvolvida em conjunto com o estudante de iniciação científica do curso de engenharia química Leandro Oshiro e do pesquisador Antônio Carlos de Francisco, a pesquisa pioneira no país foi submetida ao edital Sinapse de Inovação, da Fundação Araucária, e a partir daí se verificou que, ao combinar resíduos e fungos diferentes, o material obtido apresenta propriedades específicas.

Dependendo da matéria-prima, os pesquisadores observaram que o produto é altamente resistente a chamas e demora para entrar em combustão. “Além disso, como o fungo faz essa rede de filamentos e ‘prende’ o ar dentro de sua estrutura, tem uma alta capacidade de absorção acústica e é um bom isolante térmico”, conta Oshiro, que compara o material com o isopor. 

O material também é bastante leve e pode ser produzido em qualquer formato – basta cultivá-lo dentro de um molde na forma desejada.

Material é leve e pode ser produzido em qualquer formato – basta cultivá-lo dentro de um molde na forma desejada (Foto: Divulgação/Mush)

Trata-se ainda de um material biodegradável, que se decompõe em condições ambientais em apenas 28 dias. “A gente já fez um teste de compostabilidade em condições domésticas e mostrou que o material biodegrada em casa, seja no solo, na água salgada. É algo muito impressionante diante de outros materiais sendo hoje utilizados no mundo. E ainda faz bem para o solo”, relata Sydney.

As qualidades do material eram tantas que os pesquisadores brincam que esperavam até mesmo alguma coisa dar errado para poderem enfim estreitar o escopo da pesquisa. Mas a verdade é que o material é extremamente versátil, e capaz de gerar uma plataforma de soluções para variados mercados, como construção civil, embalagens, produção de couro, indústria automotiva e até aeronáutica. 

“O que a gente percebeu é que, dependendo do fungo e do resíduo agroindustrial que a gente trabalha, é possível potencializar uma ou mais características em detrimento de outras. Acaba virando um trabalho infinito no sentido que a gente consegue fazer combinações e gerar soluções para diferentes mercados”, conta Sydney. 

Dentre os resíduos agroindustriais que o grupo pesquisa no momento estão a serragem, o resíduo do processamento de milho e o bagaço de cana (Foto: Divulgação/Mush)

Dentre os resíduos agroindustriais que o grupo pesquisa no momento estão a serragem, o resíduo do processamento de milho e o bagaço de cana. “Todos deram resultados bem promissores. Mas estamos pesquisando para chegar a uma fórmula perfeita para cada tipo de mercado”, explica Oshiro. 

E, segundo Francisco, as possibilidades ainda estão em fase de descoberta. “A cada dia, conforme a gente vai avançando, mesmo no foco de um tipo de resíduo, a gente percebe que existem outras utilidades que estão sendo abertas. A flexibilidade é muito grande e tudo isso é em cima de uma plataforma. Você tem o mesmo processo de produção e diferentes utilidades para ele (o material). É muito difícil identificar produtos com essas características e que tenha todo esse apelo sustentável de economia circular, bioeconomia circular”, acrescenta o pesquisador, que é professor aposentado da UTFPR campus Ponta Grossa e trabalha na área de pesquisa de sustentabilidade desde 2019.

Recentemente, a pesquisa teve o projeto aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pôde contar com a ajuda de uma estudante de pós-doutorado, que está estudando todos os resíduos, fungos e propriedades dos materiais resultantes de suas combinações para fazer um mapeamento de quais os insumos mais apropriados para aplicação do produto nos mais diversos mercados. 

Mas, devido às características termoacústicas do material, os pesquisadores optaram por começar pelo mercado de soluções acústicas. 

MUSH… PACK

A Mush nasceu na verdade com outro nome: Mushpack. A ideia, com o material, era atender o mercado de embalagens. Mas, ao participarem de um programa de inovação aberta com a BRF, os pesquisadores viram que, para atender um único cliente, a empresa já teria de contar com uma alta capacidade de produção – algo muito difícil para uma empresa em gestação.  

“Então a gente foi buscar um mercado em que a gente consegue gerar produtos de alto valor agregado, que vai permitir o contato das pessoas com nosso produto. A nossa estratégia é que isso nos dê sustentabilidade econômica, que também é importante para a empresa, e consiga alimentar outros desenvolvimentos”, disse Sydney.

A primeira linha de produtos lançada pela startup neste mercado é a Coleção Íris, criada em parceria com o Furf Design Studio e voltada ao conforto acústico para ambientes residenciais e corporativos, em substituição à espuma.

Placa de material com tecnologia Mush (Foto: Divulgação/Mush)
Placas podem ser empregadas em ambientes para proporcionar conforto acústico em ambientes residenciais e corporativos, em substituição à espuma (Foto: Divulgação/Mush)

A entrada no setor de embalagens, entretanto, ainda está no radar da empresa, que inclusive tem uma carta de interesse da Braskem. “Juntos estamos buscando um co-investidor no setor de embalagens para montar uma fábrica”, afirma Sydney.

CONTRIBUIÇÃO NACIONAL

Pesquisas em todo o mundo já davam conta que as aplicações deste produto são infinitas: a Adidas está lançando um tênis e a Hermès lançando uma bolsa com couro de micélio (o corpo do cogumelo formado por filamentos). A Ecovativ, uma empresa norte-americana, tem uma parceria com a rede de lojas Ikea no setor de embalagens. A Nasa está pesquisando fungos para produzir casas em Marte e na Lua. 

Mas os desafios aqui e lá fora são os mesmos: aumentar a escala de produção e colocar o produto efetivamente no mercado. No mês passado, a Mush conquistou o seu primeiro investimento. É do grupo Ventiur, mas o valor ainda não pode ser revelado. O aporte será destinado à compra de equipamentos, reforma da estrutura física e mão de obra. “Isso vai permitir que a gente monte uma escala piloto de produção”, pontua Sydney.

A expectativa é que o preço de produção do material seja de R$ 12 o quilo. Antes da pandemia, a produção do isopor custava em torno de R$ 10 o quilo, estima o pesquisador. “Nosso produto está com valor muito próximo (do isopor), porém com ganhos de sustentabilidade muito maiores.”

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